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Os Quatro e Meia

Toda a história começa com uma pré-história. No princípio, era a amizade. Tiago Nogueira, Ricardo Liz Almeida, Mário Ferreira, João Cristóvão Rodrigues e Rui Marques conheciam-se do meio de Coimbra onde estudavam na Faculdade. Pela frente, tinham um percurso académico por concluir e uma carreira profissional por inaugurar. Do circuito das tunas, sabiam das afinidades musicais uns dos outros. O gosto pela música portuguesa, em particular referências como Rui Veloso, António Zambujo, Miguel Araújo, João Gil e Os Azeitonas, era transversal. Estavam ainda muito longe de imaginar que um imprevisto seria a descolagem para uma bonita e grandiosa história.

Podia ser lenda ou mito urbano, mas o parto d’Os Quatro e Meia foi um daqueles acontecimentos que só acontecem no cinema aos domingos. Quando a Academia de Dança da irmã de Tiago Nogueira precisou de angariar fundos para um sarau no Canadá, o futuro vocalista e guitarrista lembrou-se de chamar amigos da faculdade e secundário para um concerto de beneficência, nada mais, nada menos que no mítico Teatro Académico Gil Vicente. A cinco minutos de pisar as tábuas do palco, nem sequer havia um nome. Eram cinco, ou melhor quatro e meia, dada a estatura do contrabaixista Rui Marques. Tiago Nogueira (voz), Ricardo Liz Almeida (voz e guitarra), Mário Ferreira (teclas, acordeão e vozes), João Cristovão Rodrigues (violino e bandolim) e Rui Marques “Meia” (baixo e contrabaixo) olharam uns para outros, somaram e dividiram. Quatro e Meia e não se volta a tocar no assunto. Apresentaram então sete versōes do cancioneiro colectivo da música portuguesa e as reacçōes foram imediatas: no final, tinham duas propostas para voltar a actuar. Aceitaram. Continuar era a única solução.

Isto foi em 2013 e o circuito regional chamava por eles. Ao terceiro concerto, uma novidade. Na cantina da Universidade, tinham reparado em Pedro Figueiredo  (baterista e percussionista) quando este, em vez de peles, marcava o ritmo com o tabuleiro. Convidaram-no e a formação estabilizou até hoje. Fruto do boca a boca entre amigos e conhecidos, o número de seguidores nos concertos continuava a crescer. Era inevitável avançar para o nível seguinte: a escrita de originais. No final desse ano, chegava P’ra Frente É que É Lisboa, a primeira canção assinada pelos Quatro e Meia. Seria uma premonição? Não muito tempo depois, esgotaram o Teatro do Bairro em Lisboa. Sem promoção ou uma estrutura profissional a suportá-los. Amigos próximos já se tinham multiplicado em amigos de amigos e alguns vídeos do primeiro concerto no YouTube, publicados por anónimos presentes nessa histórica estreia, asseguravam a transmissão digital de testemunho.

O caso era sério. Sem se darem conta, os Quatro e Meia já não eram apenas seis. Eram muitos mais e o burburinho começou a alastrar-se ao meio. Fãs dos Azeitonas, escreveram Já Estou de Regresso, Amor em resposta a Ela Foi para a Guerra Amor. Não só os portuenses não levaram a mal, como ainda convidaram os Quatro e Meia para a primeira parte de um concerto em Coimbra. Quase sem se aperceberem, o que começara por brincadeira era cada vez mais sério. Já não havia como inverter a marcha.

Sem saberem, o futuro agente Pedro Barbosa, da Primeira Linha, ouviu o primeiro álbum. E ficou admirado. Era o parto de uma relação decisiva para a profissionalização dos Quatro e Meia que, nem haviam abandonado a carreira académica, nem deixaram de seguir as suas profissões, conciliando sempre com a música.

Pode dizer-se que, até aí, a sucessão de acasos deu boa fortuna ao talento dos Quatro e Meia. De então para cá, a ascenção foi natural. Single a single, esperaram pelo momento certo para pôr Os Pontos Nos Is, no álbum de estreia que em 2017 lhes deu um primeiro lugar no top de vendas. Conheceram algumas das melhores salas do país como os Coliseus de Lisboa e Porto, o Campo Pequeno, o Theatro Circo, a Casa da Música, o Teatro Tivoli ou o Convento de São Francisco, com o privilégio de lotaçōes esgotadas. Estiveram em alguns dos festivais mais importantes do país como MEO Marés Vivas, EDP Cool Jazz, Festival do Crato, Sol da Caparica, Santa Casa 2020 e Música no Parque, entre outros.

Em 2020, repetiram a façanha do longa-duração inaugural com o sucessor O Tempo Vai Esperar. O lugar cimeiro do top nacional para o álbum produzido por João Só, a que se juntaram dois passageiros nada acidentais: Carlão e Tatanka. Em 2021, foram nomeados para Melhor Banda nos Prémios Play. Nunca perderam a simplicidade. Apesar dos louros, Tiago Nogueira não teve reservas em submeter Amanhã ao Festival da Canção 2022, e entre mais de 600 candidaturas, foi uma das quatro escolhidas. Avançaram até à final e só ficaram atrás de Maro. Já houve segundos lugares piores.

A 25 de junho de 2022, deu-se um pequeno grande milagre quando, a jogar em casa, esgotaram o Estádio Municipal de Coimbra. O que começara por famílias numerosas, amigos e amigos de amigos, adquirira em menos de dez anos estatuto de acontecimento nacional. Só um lote restrito de bandas nacionais teve a audácia de fazer dos estádios a sua casa por uma noite. 17 mil almas quiseram sentir o sol e os Quatro e Meia devolveram em felicidade, luz e calor humano, entre noites de glória na Super Bock Arena (Porto, em dose dupla) e NOS Alive em Algés. A 4 de novembro deste ano, a Altice Arena será um exame a encarar com a mesma cumplicidade que as cançōes destapam e o terceiro álbum na algibeira. Em 2023, fazem dez anos e, aconteça o que acontecer, continuarão a ser o mesmo grupo de amigos que a música só fortaleceu.

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